segunda-feira, 12 de maio de 2008




in-trânsito



Começo em trânsito, ou melhor, sem começo nem fim, sem saída nem chegada, sem origem nem destino, “um farrapo imóvel “.
Talvez seja o mundo em vertigem, e eu meio que deslizando, vou flutuando nesse espaço ilimitado.
Em uma pluralidade de direções perco por instantes a capacidade de reagir. Instantes sem noção de tempo que produzem o desejo de deslocamento.
Num constante ir e vir me encontro em meio a um eterno processo de desterritorialização e reterritorialização e o tempo como que desinteressado, passa sutilmente e leva o instante.
Em espaços desconectados, um esvaziamento de sensações. Um inacabamento de mim.
O trânsito torna-se um vazio de movimentos constantes. Dimensões indeterminadas, temporalmente também. Presença mal definida, informe, quase imperceptível, suspensa. As coisas em estado de suspensão. Insegurança e fragilidade tomam conta de todo o percurso.
A sensação é de uma jornada, uma aventura distraída sem bússola, sem mapas ou referências locais. Deixando fugir no silêncio do desencontro de mim mesma, os caminhos ínfimos que permitem ver e ouvir o imperceptível. Neste percurso “não se trata de descobrir algo, não há o que descobrir. Trata-se apenas de sentir e deixar-se tocar pelo que passa, deixando marcas na pele.”
A distração provoca e desacomoda. Desordem. Ensaio-me movimento para no fluxo do tempo e na esperança de uma brisa (ou um furacão?) cair em terra, mesmo sem saber bem o que me espera em terras firmes ou o que eu espero de terras firmes.
Um sussurro de movimentos ritmados reverbera em meu corpo “um convite ao salto”.
Prendo a respiração e num movimento mínimo, como que num tropeço deixo-me ser transladada. Aporto.


Impulsionada por lembranças flutuantes, escolho um recorte do mapa onde há resquícios de encontros outrora intensos e agora completamente desalinhada pelo trânsito, em uma condição toda nova de espaço e tempo. O trânsito está agora em outra dimensão, no tempo individual de cada um.
Punge então o desejo de compartilhar com o outro uma conversa confusa, equivocada mesmo, mas que mude algo, que inverta, converta, substitua, transforme, troque, toque. Um escambo de si, uma troca com o outro e mim mesma.


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Um comentário:

Soraya Martinnelly disse...

Ei Tatá. Gostei do texto e acho que tá refeltindo bem esta sua fase: achei bem estimulante; gostei de "um inacabamento em mim" e também de " a distração provoca e desacomoda", entre outros....Isso aí!!! Inté. Besos de Tânia